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Blood Moon, photo by Stephan Herb on Unsplash |
Eu queria ter
aprendido o que sei agora sobre o meu ventre quando era adolescente.
Antes de entrar para a puberdade, eu mesma me
ensinei o que eu achava que havia que aprender sobre o ciclo menstrual, sobre
as mudanças que iam acontecer no meu corpo, sobre os novos artigos de toilette
que ia precisar. Lembro de estar a estudar no Algarve nessa altura, e em vez de
ir para o recreio nos intervalos das aulas, ia me refugiar do bullying e do
racismo na quietude da biblioteca. O que é que eu gostava mais de ler? Tudo o
que tivesse a ver com a puberdade, a adolescência e o sistema reprodutor
feminino. Desde livros escritos para jovens até aos mais
científicos, que diga-se de passagem ali na biblioteca da escola eram muito
poucos, para além dos manuais de biologia. Estava na quinta classe.
O que todos esses
livros não me ensinavam era o lado oculto do nosso ventre.
Ao aparecer a menstruação dois anos depois, chegaram e foram intensificando-se a
cada ciclo os sintomas da endometriose a cada menstruação maior a dor. Tinha doze
anos. Demorei dos doze aos vinte e sete anos a aprender o que guardava o meu
útero para que se manifestasse daquele jeito, com tanta dor.
Aprendi que toda a
condição física, tem uma raiz oculta que não está no nível físico. Todo o
ventre tem uma existência oculta, que não se vê fisicamente, que não se ouve,
mas se sente. O que há em nós que não se vê fisicamente, não se ouve, mas se
sente? Os nossos
sentimentos, as nossas emoções e os nossos pensamentos.
O ventre é o
lugar onde se arquivam os nossos sentimentos e emoções. Também se arquivam os resultados dos padrões de pensamento que temos em relação à nossa condição feminina e à nossa
sexualidade. Também se arquiva toda a nossa energia criativa e sexual. Também
se arquivam memórias e informação de ADN.
Quando um ventre
grita por cura, ele dói. Quanto mais intensa for a dor, maior é a profundidade
do que é necessário curar. Carregamos no nosso ventre memórias, sentimentos,
emoções, padrões de pensamento bons e maus, nossos e das nossas ancestrais. Estamos ligadas às mulheres da nossa família, às mulheres que nos antecedem
pela energia dos nossos ventres que criaram uma e outra e outra. E de ventre em ventre a história da
existência dessas mulheres vai ficando escrita. Cada ventre que nasce, nasce
com a sua história para escrever, mas carregado já de muitas outras histórias
dos ventres que vieram antes dele, acumulando nele felicidade, saúde ou trauma
e dor.
O meu ventre é um
dentre milhares que carrega trauma e dor. Não é incomum a maior parte dos
nossos ventres carregarem trauma e dor pesados e acumulados de geração em
geração, pois como mulheres africanas passamos por muito. As mulheres que
vieram antes de nós aguentaram muito. Muita dor, muita violação, muitos filhos,
frutos dos seus ventres, roubados ou assassinados, muitos amores rompidos,
muitos ventres traídos, muita subjugação, muita opressão, muita perseguição,
muita mutilação, muita escravidão… São memórias que nos marcam por gerações a
fio e devem ser curadas. O objectivo é aliviar a carga desses ventres para que
a geração que vem a seguir venha mais leve para seguir o seu caminho neste
mundo, sem ter que curar toda uma linhagem de ancestrais que não puderam fazer o
trabalho de cura, mas cujas almas clamam por cura e liberdade.
Essas ancestrais
estão dia a dia connosco nos sussurrando, nos guiando, nos protegendo, nos orientando para que
façamos o caminho da cura. Só depois de fazermos o caminho da cura conseguimos
então estar livres para usarmos o poder criativo dos nossos ventres e manifestar a nossa missão no mundo. Porque também o ventre é o lugar da
criação, o lugar onde reside toda a energia que temos para criar a nossa
realidade.
A energia criativa, a energia do nosso ventre, fica estagnada, fica fraca ou fica intensa demais quando temos
muito trauma arquivado. E quando ela fica desequilibrada ela acaba causando um
mau funcionamento desses ventres e aí surgem as dores, as endometrioses, os
miomas, os quistos, os ovários policísticos.
As medicinas
tradicionais milenares, como a chinesa, têm o cuidado de ver o nosso corpo como
um todo e não negligenciam o nosso sistema energético. Têm todas um conjunto de
práticas regulares para adicionarmos ao nosso estilo de vida, que nos ajudam a manter
o nosso sistema energético a funcionar bem, para que se promova boa saúde para
os outros sistemas do corpo físico. O sistema energético circula pelo corpo
como o sistema sanguíneo, e pelo sangue ele leva saúde e equilíbrio a
todos os órgãos. Quando o nosso sistema energético está em desequilíbrio, a
nossa circulação de sangue que oxigena, renova células, limpa toxinas, dá
energia, movimento e actividade ao nossos corpos entra em desequilíbrio
também. A distribuição de nutrição para os nossos órgãos não é ideal, eles
começam a desempenhar mal as suas funções, a produção de hormonas entra em
desequilíbrio e depois ouvimos que doenças como a endometriose, os ovários
policísticos e os quistos e miomas têm a ver com desequilíbrios
hormonais. Mas que também existe uma predisposição genética para elas… Também
existe uma memória genética para elas… Também existe informação no ADN que nos
predispõe a elas… Também existem memórias que passam de geração para geração
que nos predispõem a elas… Também existem memórias que passam de ventre em
ventre que se acumulam, que são demais para aguentar, que já estão tão graves a
nível energético que se começaram a manifestar a nível físico.
Antes do
nosso ventre criar, é bom o nosso ventre curar. Quando um ventre se cura, ele
cura também a todos os outros ventres que o antecederam, pois estamos todas as
mulheres da mesma linhagem ligadas pela energia dos nossos ventres. Quando uma
mulher se cura a si mesma ela cura também todas as mulheres que a antecederam. Quando uma
mulher se cura a si mesma ela liberta de traumas todas as mulheres que a antecederam e
todas as mulheres que virão do seu ventre depois dela. Ventres têm energia de
cura, de conexão de criação.
Esse era o lado
oculto do ventre que não me contavam os livros na biblioteca. Essa é uma
sabedoria que uma mulher conta a outra, que uma mãe conta a uma filha. É
sabedoria que nos foi obrigada a calar, e oprimida, e também essa opressão faz
parte daquilo que devemos curar. O calarmos e escondermos sempre tudo aquilo
que diz respeito ao que dói os nossos ventres, por medo de vergonha, por medo de
julgamento, por medo de exposição.
Essa é sabedoria
que deve passar de mulher para mulher, para que nos possamos curar. E só nos
vamos curar abrindo-nos umas para as outras, deixando a sabedoria fluir. Não
retendo-a. Precisamos de muita cura. Precisamos nos abrir, falar,
escutar com carinho e sem julgar, acolher, amar. Amar-nos umas às outras. Já sofremos
demasiado por nos forçarmos a calar a nós mesmas e calarmos umas às outras.
Deixem a
sabedoria fluir… Há segredos ocultos que livros não revelam, só corações
abertos o fazem.
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